quinta-feira, 10 de maio de 2012

Vítor Pereira: «Arrependo-me de quando não fui eu próprio»


Treinador faz uma retropetiva da temporada e lembra o jogo em Barcelos: quando aconselhou a entrega das faixas de campeão ao Benfica.


No fim de uma época longa e muito desgastante, Vítor Pereira está finalmente mais solto. Sorri mais e deixa o coração chegar-lhe à boca para falar com toda a sinceridade. Nesse sentido fez um reflexão interior e admitiu que nem tudo foi pefeito. «Ser treinador é um desafio permanente.» 

Embora não o tenha dito, pareceu que o treinador lamentava sobretudo as vezes em que entrou em discussões. Por exemplo com Jorge Jesus. «Há momentos da época em que a tensão é enorme e deixamos de ser nós próprios. É desses momentos que me arrependo, quando nunca fui eu próprio.» 

«Sinto-me bem comigo e quero ser sempre eu. Se calhar houve momentos em que não tive a educação e os princípios morais que sempre dirigiram a minha vida. Para aqueles que em algum momento se sentiram desrespeitados por mim, não foi a minha intenção», finalizou o treinador.

Pelo meio falou do final do jogo em Barcelos. O F.C. Porto perdeu com o Gil Vicente e Vítor Pereira atirou que podiam entregar as faixas de campeão ao Benfica. Naquilo que foi uma crítica à arbitragem do jogo. «Acho que foi o único jogo em que falei de arbitragem», lembra. 

Não foi: falou também de arbitragem, por exemplo, no fim da eliminação da Taça da Liga no Estádio da Luz. Mas enfim, voltando a Barcelos: «Nunca seria capaz de avaliar a pessoa, porque devemos sempre respeitar a pessoa, mas aquele jogo correu-lhe claramente mal», sublinhou.

«Nós também não estivemos ao nosso melhor nível e esses fatores determinaram a única derrota do F.C. Porto no campeonato. Essa declaração contra a arbitragem de Bruno Paixão traduziu o que sentia naquele momento e não me arrependo dela por isso», finalizou.

«Qualquer um é campeão no Porto? Vão ver a história»

Vítor Pereira lembra que sempre teve de lidar com a desconfiança e garantiu que vai continuar a ganhar.


Vítor Pereira respondeu à pergunta que remete para aquilo que muita gente diz: que ser campeão no F.C. Porto é um feito ao alcance de qualquer treinador. O que no fundo só serve para retirar o mérito do técnico campeão nacional, como há uns anos já servia para retirar mérito a Jesualdo Ferreira.

Perante ta pergunta, o treinador não perdeu a compostura e reagiu com uma evidência, claro. «Nós aqui podemos ser treinadores porque nos transmitem confiança para sermos treinadores. Pergunta-me se qualquer treinador é campeão neste clube? Basta ir à história e ver que não é assim», disse.

«A vida é feita de desafios, temos de mostrar sempre que temos competência e muita dedicação. Este clube tem uma estrutura muito forte. Mas a minha vida tem sido isto, tem sido sempre mostrar que ultrapasso desconfianças. Vou continuar a ganhar títulos e a ter conquistas na minha vida.»

Pelo caminho o treinador revelou os momentos mais complicados da temporada. «A eliminação da Liga do Campeões e a derrota em Coimbra que nos afastou da Taça e Portugal», atirou. «Mas essa derrota trouxe também o momento em que todos percebemos que tínhamos de arrepiar caminho.»

«A partir de Coimbra percebemos que devíamos focar-nos nos nossos objetivos. Às vezes nas derrotas, e essa derrota foi dolorosa, aprendemos certas lições e essa derrota foi o momento de viragem», atirou, concluindo que «foi um campeonato bem discutido, decidido jogo a jogo».

Vítor Pereira: «O mais difícil foi gerir as expectativas»

Treinador garante que qualquer treinador sentiria as dificuldades que ele sentiu: como motivar um grupo que ganhara tanto no ano anterior?


Vítor Pereira surgiu mais solto na conferência de imprensa: após o primeiro título de campeão nacional como treinador principal, sente-se que é um homem com o sentido de dever cumprido. Sorri muito mais, admite erros, responde às perguntas sem carregar no tom de desafio.

Por isso diz compreender as dúvidas que houve ao longo da temporada em torno do trabalho que estava a fazer. «Esta é uma profissão posta à prova diariamente, os nossos adeptos são muito exigentes, mas no momento de reconhecer o nosso trabalho, tambem sabem fazê-lo», referiu.

O mais difícil, acrescentou, foi gerir as expectativas de um grupo de jogadores que no ano anterior tinha ganho tudo. «Depois de tanta vitória, de tantas conquistas, é natural que os jogadores elevem as suas expectativas de vida. O ponto de viragem foi o tomar de consciência disso mesmo.» 

«Acredito que a grande dificuldade para mim ou para qualquer outro treinador que cá estivesse este ano, seria ultrapassar e gerir essas expectativas legítimas de quem ganhou tanto no ano anterior. Se sentia que os jogadores queriam dar o salto para um clube maior? Estamos num grande clube.»

«Sinto um orgulho enorme de toda a gente que aqui trabalha. As expectativas são coisas legítimas do ser humano. Mas não acredito, sinceramente, que se consigam ganhar campeonatos quando não há uma comunhão forte de objetivos entre equipa técnica, jogadores, estrutura e administração.»

Conquistado o título, Vítor Pereira lembrou que foi um troféu ganho com muito sacrifício, com muito trabalho, pelo que a festa que fez foi sobretudo interior. «Sou uma pessoa que está satisfeita, sem dúvida, mas a minha alegria é uma alegria interior. Não sou muito de extravasar sentimentos.»

«Fiquei feliz com aquilo que foi a nossa festa, estou muito satisfeito, mas na hora de ganhar um título, e um título como este foi ganho com muito sacrifício, é disso tudo que me lembro e que me vem à memória. É uma festa interior e a alegria de ver a satisfação da massa associativa.»

«Ficaria admirado se nos reconhecessem o mérito»

Vítor Pereira fez a antevisão ao último jogo da época e comentou a campanha do Benfica contra as arbitragens.


Vítor Pereira reagiu esta quinta-feira declarações de Jorge Jesus, do diretor de comunicação do Benfica João Gabriel e do guarda-redes Artur, que apontaram os árbitros como principal razão da perda do título. O treinador do F.C. Porto garantiu não ter ficado nada surpreendido com o tom.

«Podíamos ter começado pelas coisas boas...», atirou em jeito de brincadeira. «Ficava admirado se nos fosse reconhecido mérito por parte deles. Estávamos à espera exatamente disto. Neste clube está-se preocupado em melhorar já no próximo ano, em vez de discutir coisas que não existem.» 

Aqui não nos lamentarmos. Quem quiser compra esse discurso, compra, quem não quiser, não compra. Nós não compramos.Acreditamos no valor do trabalho e é assim que temos ganho.Neste clube acredita-se no espírito de conquista, de união e é assim que vamos conquistando títulos.»

Vítor Pereira falou a propósito da visita a Vila do Conde, em jogo da última jornada da Liga. A conversa, porém, foi dominada quase por completo pelo futuro no clube. Como tem acontecido nos últimos tempos, o futuro do treinador voltou a ser questiona. ««É assunto que não tem assunto.» 

«O presidente não diz mais porque não há nada para dizer. Para mim não faz sentido, para ele também não. A dúvida são vocês que alimentam. Vamos trabalhando», respondeu o técnico quando questionado pela não afirmação pública da continuidade. «Não estou preocupado com isso.»

O responsável também não quis desvendar quais os objetivos dos dragões para o próximo ano. «O clube trabalha, prepara as coisas com antecedência. As coisas estão a andar. E é isso que tenho para dizer. São coisas para ficar no clube. Este clube luta por todas as provas em que compete.»

in "maisfutebol.iol.pt"

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